
longa conversa
um grilo termina
outro começa
Ricardo Silvestrin


Chegar ao cinto
foi simples.
Antes dele,
muita gente sentava
e quando ia levantar
a calça caía.
“Sinto muito,
sinto muito”
é o que todos diziam.
Até que uma criatura
inventou de botar
uma corda na cintura.
Daí em diante,
sempre que perguntavam
por que sua calça
não caía, ela respondia:
“Muito cinto,
muito cinto”.
Ricardo Silvestrin


O trem em em em
tem vagão gão gão gão
e apiiiiiiiiiiita
quando chega na estação
Ricardo Silvestrin


A escrita
já tinha sido inventada.
Todas as letras,
as sílabas, as palavras.
Mas houve uma fase
em que escrever uma frase
estava causando
a maior confusão.
Tudo porque ainda não existia
O ponto de interrogação.
Alguém escrevia
por exemplo
qualquer coisa besta
como “Hoje você vai à festa”
e recebia como resposta
algo assim:
“Você não manda em mim”.
E logo tinha que esclarecer:
“Sua anta, isso era só uma pergunta”.
Pronto, virava uma briga
só por causa do ponto.
Até que alguém se deu conta
que quem pergunta
não apenas fala,
mas também escuta.
Então deu na sua telha
de colocar sobre o ponto final
o desenho de uma orelha.
Já prestou atenção?
Tem uma orelha
no ponto de interrogação.
Ricardo Silvestrin